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Campus de Goiabeiras - Vitória

As Mil e Uma Noites - Volume 1

INQUIETAÇÕES DE UM CINEMA EM CRISE

por Gustavo Guilherme*

Se as imagens fantasmagóricas de Tabu, longa-metragem anterior de Miguel Gomes, mostravam-se metafóricas em sua autorreferência contaminada por um potente teor político e forte crítica social, aqui neste O Inquieto, primeiro volume de As Mil e Uma Noites, o cineasta português compõe uma fábula com imagens que parecem constantemente duvidar de si mesmas em um filme auto-inquiridor que parece questionar a relevância do cinema em tempos de crise.

Inspirado em fatos atuais de seu país, o realizador vai a campo munido da vontade de “fazer um filme bonito, cheio de histórias bonitas e maravilhosas”, mas logo se vê diante de questões que, à medida que a projeção avança, desnudam a situação miserável de um Portugal dominado pela austeridade, bem como a fragilidade da própria arte diante da situação política e social do país.

Perante tão devastadora adversidade, responsável por levar Portugal a uma das maiores recessões de sua história e transformar sua realidade, o que poderia o cinema? O que pode a arte, a fábula, as imagens? São essas as questões que pululam e contaminam todo esse primeiro volume de As Mil e Uma Noites e que o próprio filme, desde seu prólogo, sob o prisma da sentença prévia de seu realizador, tenta responder. "Não se consegue fazer um filme militante e que, logo, esqueça a militância e se ponha a escapar da realidade. Isso é uma traição. Um dandismo.".

Não é despropositado, portanto, que O Inquieto construa-se como uma sequência de fábulas narradas por Sherazade, a mesma filha do grão-vizir que, na famosa lenda, encantara o Rei Shariar com suas estórias. Miguel Gomes inteligentemente percebe-se, enquanto realizador, refém da realidade dolorosa de seu país, tão refém quanto Sherazade é de seu rei. Só podem sobreviver, ambos, por causa das histórias que ainda são capazes de narrar.

E para nos contar com eficiência as mazelas desse Portugal atingido pela recessão, Miguel Gomes recorre à ficionalização da realidade, porque talvez não haja outra representação possível diante das transformações brutais impostas pela crise, “é uma questão de bom senso”, ele mesmo diz em off, logo no início do filme.

Talvez por isso, portanto, é que seja tão importante que esse choque constante entre documentário e ficção se permita ver (como na cena em que atores mirins, olhando para a câmera, declamam quais serão os papéis por eles encenados na sequência que virá a seguir) menos por opção estética que para denunciar, desde o início, como essas formas - ou seriam fórmulas? - são por si só insuficientes, incapazes de dar conta da ambiguidade do fazer cinematográfico em momentos de crise. É como se, a cada novo episódio iniciado por Sherazade, as narrativas fossem assoladas por um peso de realidade que atingem, a duros golpes, o próprio filme, o próprio cinema, em especial o cinema português do qual Miguel Gomes é filho.

Ao fim, resta-nos a vontade de ver mais, de conhecer as estórias que ainda faltam e ouvir as fábulas que ainda serão narradas por Sherazade e Miguel Gomes, e descobrir se esse cinema é capaz de sobreviver às vicissitudes do mundo que o mantem refém.

E se nos coubesse, então, pensar uma possível versão brasileira para esse As Mil e Uma Noites, seria difícil imaginar que Sherazade nos contasse, entre outras fábulas, estórias como as que se pode ver em Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, O Som ao Redor, de Kléber Mendonça Filho, ou Que horas ela volta?, de Anna Muylaert?

 

*Gustavo Guilherme é estudante do curso de Cinema e Audiovisual da UFES.

As Mil e Uma Noites: Volume 1, O Inquieto, de Miguel Gomes (POR/FRA/ALE/SUI, 2015, cor, 125’) está em cartaz no Cine Metrópolis nos seguintes dias e horários:

Quarta-feira (25/11), às 13h e 19h50

O Laboratório de Crítica é um espaço aberto a colaborações com artigos, análises e críticas sobre filmes, sessões, ciclos e outros temas relacionados ao cinema e ao audiovisual e às atividades do Cine Metrópolis. Para colaborar, envie um email para cinema [at] ufes.br

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